terça-feira, 18 de outubro de 2016

Companhia

- Mas o senhor tem certeza? quem lhe disse isso? - Dona Joana perguntou assustada.
Sr. Bernardo sorriu meio de canto, olhou em volta, deu um suspiro confuso entre alívio e vazio.
- Tudo diz, Jojo. Tudo diz.
D. Joana agradeceu, saiu de olhos marejados e intrigada com a resposta de Sr Bernardo. Atravessou a Rua das flores e cumprimentou a Vó Maria que acenou com a mão baixa, com uma expressão amargurada enquanto conversava com a Costureira Márcia do outro lado da rua. Passando pela Praça Galvão viu os cachorros todos deitados. Nenhum brincava ou corria de um lado pro outro, pareciam entender a situação. Embora sentisse a brisa gelada balançando seus cabelos, as árvores permaneciam paradas. Os galhos não dançavam, as folhas não caíam. D. Joana, observando cada rua que cruzava, foi ficando de coração apertado. Passou pelos garis na Av Carlitos e nenhum deles conversavam, nem mesmo a moça Lígia que nunca parava de cantar. Entrou na padaria e o Padeiro Teodoro, ao invés de brincar dizendo "Vai levar 15, D. Joaninha?" por saber que morava sozinha, lhe abriu um sorriso triste dizendo "Tarde, D. Joana... o que vai ser hoje?". D. Joana saiu cabisbaixa, não querendo ter certeza da notícia que teve. Mesmo contra a vontade, decidiu atravessar a rua e parar no portão da casa em frente. Um silêncio ensurdecedor, a cadeira de balanço encostada já não balançava. Observou as vassouras paradas, o jornal fechado em meio a tantas folhas no chão. Olhou para o céu, respirou fundo como o suspiro do Sr. Bernardo.
- Ô, Seu João... vai dar um trabalhão varrer esse quintal agora, hein? - Ela sorri. - Pede pra D. Margarida te ajudar.

Maresia
18/10/16.

sábado, 24 de setembro de 2016

Volta

Ruído. É uma palavra engraçada. O efeito dela não. Voz. Como nunca ouve casos de pessoas que ficaram loucas com o número de vozes? Gente.
Já está tudo pronto?. Está quase, eu juro.
Está nas suas mãos.
Não pilha.
O que está acontecendo?. Nada. Você não sabe conversar.
Volta. Continua aqui.
Escola. Escolha.
Que baita responsabilidade a sua.
Fica aqui.
Que imagem você vai ter se não fizer o mesmo que todo o resto?
Não sei, não quero saber.
Mantém. Não corre.
E aí? Acabou?
Mais ou menos.
Como vão as notas?
Não sei.
Volta aqui, o que quis dizer com isso?
Eu não disse nada.
Você precisa fazer isso.
Não preciso não, me deixa em paz.
Você é louca, sabia?
Acho que sim.
E agora?
O que?
O que vai fazer? E aí? Tô perguntando. Responde! O que vai fazer?
Não sei. Não quero.
Para de falar comigo. Vai embora. Eu não quero surtar. Eu não vou surtar. Eu não quero ficar aqui dentro. Eu não vou surtar. Volta. Não quero ficar aqui. Não vem atrás de mim. Volta. Não dá mais. Eu tô fazendo o que aqui? Alguém vai vir aqui? Vai universo, já que me faz passar por isso, me traz alguém aqui. Você não vai trazer, não é? Tudo bem. Surta, ninguém vai te ver. Já não sei se faz mal. Pode chorar. 10h. 10h13. 10h27. 10h36. 10h43. Eu não vou subir.
Apaga.
A manhã se foi.
Você tá aqui.


Você tá aqui. Percebe o silêncio?


Não há nada que meus olhos pedissem mais do que tuas pupilas assim. Do jeitinho que eu tô vendo.

Eu só quero ficar aqui. Tá ouvindo? Olha o que você causa aqui. Te abracei mais forte pra você sentir.


Tá silêncio aqui. E tem tanta coisa sendo dita.
Eu te amo pra caralho.
Eu não quero parar de te olhar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

nada mais me falta

Por que tanto tempo, moça? Aliás, me desculpe por já começar lhe interrogando dessa forma. Mas é que eu não entendo, sabe? Por quanto tempo permitiu que ela lhe esperasse? Uma semana. Dois meses. Seis anos.
Por quê, moça? Por que insistiu nesse teu outro amor que tu acabas de mandar partir? Por quê, moça? Olha só pra ela. Sabe lidar com cada centímetro teu. Teve um tempo que ela lidou com cada pedaço de mim também. No tempo em que tu só confundia tua cabeça e se afogava nas próprias escolhas. Poxa, moça... Por quê? Cada parte de mim, ela já sabia lidar. Deve ter aprendido contigo. Ela sempre soube lidar com tudo. Com meus monstros, ela aprendeu. Um por um. Ela é a melhor pessoa que eu conheço. Provavelmente é a melhor da tua vida também. Olha direito pra ela. Vê? Olha os olhos devagar. Olha o sorriso dela. O corpo sem defesa nenhuma diante de ti. Mas olha mais, moça. Não deixa tua cabeça se acostumar. Finge que está descobrindo agora. Olha a calma que ela passa. Esse mundo nas costas. A cabeça conturbada mas o peito sempre aberto pro teu florescer. Por que essa flor teve tanta incerteza, moça? Você nem vai sentir tanta falta assim desse outro amor que a fez te esperar... por tanto tempo. Desculpa tantas perguntas. Não me leve a mal. É só que, às vezes, olhando pra ela distraída, eu me pergunto como alguém pode deixá-la pra depois. Ela foi meu agora por muito tempo, moça. E parece que agora ela pode ser tua, não é? Mas olha... não desfaz dela não. Não fica avoada quando te pedir pra olhar pra ela. Faz cafuné no cabelo dela quando estiver manhosa. Nervosa também. Faz bico quando ela brigar contigo. Diz que o sorriso dela é lindo. Mas não diz com ar de quem agrada, diz porque é verdade. Diz porque é lindo. Diz que o abraço dela acalma. Não deixa de dizer. Diz que ela é o teu agora. Não demora pra dizer, moça. Não a faz esperar mais. Ela sabe lidar com cada centímetro teu. E já esperou tanto. É isso, moça. Cuida do meu bem, ta bom? Cuida do amor dela que é teu.
P.s.: Vê se não esquece de dizer do sorriso.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Cronômetro regressivo

Menos tempo.
Cada vez menos tempo.
Cada dia menos.
Então, acredito que seja isso.
Como uma entrega que é marcada pras 17h e chega às 9h.
Uma tia que diz que vem em junho
Mas preferiu passar o feriado prolongado de março.
Quando se pensa que tem ainda três semanas para uma apresentação de defesa,
Mas na verdade é na próxima quinta.
Definitivamente,
Quando planejamos
Nosso vinho a noite de frente pro mar.
Nossa sessão de fotos em algum parque bonito.
Nossa viagem de férias,
Tudo pra semana que vem.
Sem perceber que semana que vem
Nem é mais semana de férias.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Interesses

Oi, mãe. Deu tudo certo lá no banco? Tô bem. Não, aconteceu nada não.
Mãe!? Cê tá ocupada? Não, tô bem. É que eu queria conversar.
Tá fazendo o quê? Estranho? Por quê? Não, não aconteceu nada, já disse.
Mãe. A gente pode conversar?
Ei. Eu sei que nossa conversa tomou um rumo estranho e eu disse muita coisa de uma vez só. Desculpa, mãe.
Oi. Eu tô indo comprar algum doce, você quer? Tem certeza? Tudo bem. Eu não demoro.
Olha, não é querendo voltar na conversa de ontem mas... Não, mãe, eu não quero brigar. É só que você... desculpa. É só que a senhora precisa me dizer alguma coisa. Tudo bem.
A senhora não pode ficar assim comigo pra sempre, eu já pedi desculpa. Achei que tinha dito que entenderia.
Perdão, falou comigo? Estava de fone. Não, não estou com muita fome, obrigada. Pode deixar, eu abaixo o volume, sim.
Mãe!? Só pra avisar que eu já cheguei. Você quem fez meu prato? Obrigada.
Eu tava pensando e sobre... É, sobre isso sim. Ficou tudo bem entre a gente? Mãe, não faz assim. Não finge que não tá chateada nem que pode estar me odiando. Eu sei que não é como você esperava. Sei que você esperava um amor de olhos contornados, cabelos longos, a verdadeira delicadeza de mulher. Queria que meu amor fosse a melhor filha de alguém. Eu sei que você nunca vai entender o meu amor vestindo roupas de couro, cabelo bagunçado e barba por fazer, mãe. Mas o meu amor por voc... pela senhora. A senhora entende, mãe? Que é a pessoa mais importante pra mim nesse mundo? Pode olhar pra mim, mãe. Eu sabia que a senhora entenderia. Pelo menos esse amor. Eu também. E amo muito.
Oi, mãe. Tudo bem? Tô bem. Eu liguei pra avisar que eu não vou jantar em casa. Eu vou pra praça São Lourenço com o Fernando. Hoje a gente completa 1 ano de namoro e ele disse que quer me most... Ah, sim. Não, tudo bem. É, me desculpe, a senhora não quer saber disso. Eu não volto tarde, ta bom? Mas tranca o portão. Se cuida. Te amo.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Caos

ah, se era confusa.
mal sabia da vida, nem sabia de nada,
não sabia os dias, se perdia no bairro de casa.
"não te incomoda que não te entendam?"
e como poderia, se mal ela se conhecia?
amava a noite, admirava o dia.
gostava do sol, namorava a lua.
dançava num canto, fechava a rua.
era dialética,
era yin e era yang
e ninguém nunca entendia a cabeça da menina
que num instante estava sorrindo
e tinha vontade de chorar
e chorava.
assim mesmo,
enquanto sorria.
e lhe perguntavam:
"Tá feliz ou tá triste, Maria?"
Eu tô poesia.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Aguarde...

A morte de quem vê poesia em tudo é lenta.
Que dói devagar.
No tempo que um paulista traga um cigarro no meio do trânsito.
De quem precisa de afago, a espera pra sair de uma balada insuportavelmente cheia de gente vazia.
No ritmo de uma lágrima que demora a percorrer o rosto todo.
É quem vê poesia.
É quem sente o caos e sorri amargo.
Uma morte tão linda a do poeta, que é capaz de segurar uma flor contra seu próprio peito à espera dela.
Só pra ser digna de escrita.

Maresia